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  • Contos da Palma da Mão: O porto

    Yasunari Kawabata (1899-1972) foi o primeiro autor japonês a ser laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Ao longo de sua prolífica carreira literária, ele produziu uma série de pequenos (quiçá pequeninhos) contos, geralmente não mais que cinco ou seis páginas, que foram apelidados pelo próprio autor de “Contos da Palma da Mão”.

    A maioria dos autores, quando jovens, compõem poemas. Eu escrevi meus contos da palma da mão.
    – Yasunari Kawabata

    A edição da Estação Liberdade, de 2019, compila 122 desses contos, escritos entre 1923 e 1964, isto é, durante uma grande parcela da vida do autor. Há períodos no qual a publicação dos contos é mais volumosa; outros, mais espaçada. Há notadamente um grande vazio entre 1935 e 1943, e mesmo após a guerra a publicação torna-se mais esparsa. Sendo tamanho o volume de contos e o espaço temporal no qual foram produzidos, é um tanto quanto tortuosa a tarefa de tentar encontrar algum tema único para os contos, algo que abrace essa miríade de contos sob um único manto. Eu, no entanto, acredito que há, sim, uma espécie de “tema” que permeia todos os contos. Talvez não seja um tema propriamente dito, mas sim uma emoção particular que a grande maioria dos contos da palma da mão busca, em maior ou menor grau, trazer. Tratam-se de acontecimentos do cotidiano que evocam, de súbito, algum tipo de reflexão profunda.

    Gostaria de trazer, de modo a ilustrar esse pensamento, um dos meus contos da palma da mão prediletos. Trata-se de “O porto”, publicado em 1924. Não possui mais que uma única página.

    O porto

    Era um porto interessante.
    Mulheres casadas e moças de família vinham às hospedarias. Enquanto um hóspede permanecesse, a mulher ficava com ele. Ela o acompanhava desde o momento em que se levantava pela manhã, no almoço, e também nos passeios. Era como um casal em lua de mel.
    Mesmo assim, se o homem a convidasse para ir a umas termas das proximidades, a mulher inclinaria um pouco a cabeça e ficaria pensativa.
    Contudo, se ele sugerisse alugar uma casa nesse mesmo porto, caso fosse uma moça solteira, ela ficaria contente, na maioria das vezes, e diria:
    — Vou fazer de conta que sou sua esposa. Desde que não seja por muito tempo. Desde que não seja por meio ano ou um ano.
    Naquela manhã, quando ele ia partir de navio e se apressava na arrumação de sua bagagem, a mulher que o ajudava disse:
    — Querido, pode escrever uma carta por mim?
    — Logo agora, por quê?
    — Porque não sou mais sua esposa. Por isso, não tem mais problema, não é? Enquanto você estava aqui, eu sempre fiquei ao seu lado. Eu não lhe aprontei nenhuma maldade. Mas já não sou mais sua esposa.
    — Está bem, está bem — concordou ele. E redigiu a carta para um homem, que parece ter ficado nessa hospedaria com ela por cerca de quinze dias.
    Você mandaria uma carta para mim também? — perguntou ele. — Na manhã em que um homem embarcasse num navio, quando deixasse de ser a esposa desse homem?

    A premissa do conto é muito simples, como podem ver: neste porto, os visitantes que forem ficar por lá por algum tempo (mas não muito tempo) podem ter uma esposa de mentirinha durante sua estadia. No Kawabata, aquilo que não é dito é, por vezes, mais importante do que aquilo que é dito nas páginas. Os contos da palma da mão, justamente por sua natureza diminuta, levam esse traço ao seu extremo. Ao homem vem uma percepção súbita, que talvez estivesse suprimindo durante todo esse tempo. Ao pedir que escrevesse a carta, a natureza mentirosa do relacionamento vem finalmente à tona e ele é obrigado a refletir sobre isso. O destinatário da carta parece ser alguém que a mulher ame de verdade e ele deseja ter esse mesmo tipo de conexão – uma relação verdadeira. A fala final parece ser tanto uma pergunta quanto um pensamento em voz alta: ele, no fim, enseja ter um relacionamento de verdade com a mulher. Pergunta se ela escreveria uma carta a ele também. Se, ao encerrar mais um casamento de mentira, seus pensamentos se voltassem ao homem que ama de verdade…

    Isso nos faz pensar: o quão mentiroso foi esse casamento? O que viveram juntos, o que aconteceu nesses meses?

    Essa é a beleza da brevidade: jamais saberemos! A história é espremida até que sobre apenas o essencial, o núcleo, por assim dizer. É como se fosse despida de toda a roupagem, até que estivesse praticamente nua no papel. Não é por acaso que, pouco antes de morrer, Kawabata publicou uma versão “enxugada” de sua magnum opus, O País das Neves (1948), traduzida em inglês como “Gleanings from Snow Country”, algo como “Recortes do País das Neves”, em uma tradução livre. Nessa versão, o romance de mais de 200 páginas é transformado em um pequeno conto de cerca de uma dúzia de páginas. A história é despida – é reduzida à sua essência, é transformada em um conto da palma da mão. Tanto é que, na edição da North Point Press de 1988, o último dos contos da palma da mão é, justamente, Gleanings from Snow Country. Acredito que é um exercício interessante tentar despir qualquer história dessa forma, isto é, tentar transformá-la, assim como fez Kawabata, em um único conto da palma da mão, de modo a entender exatamente onde está seu coração.